O SENTIDO DA VIDA
Em um dia nublado e melancólico, Alberto sentou-se num banco de praça e portou-se como quem não está bem: olhar baixo e distante, postura encolhida, pensativo. Sentia-se desinteressado por tudo, pessimista e abatido.
— Qual é o sentido da vida?
A pergunta, provavelmente, foi dirigida ao Pedro, que estava sentado no banco ao lado, distraído, tomando um sorvete na casquinha.
— Hein! Está falando comigo?
— Sim, Pedro! Eu quero saber qual é o sentido da vida!
Pedro deu de ombros, disse apenas “sei lá!” e esperou que a conversa se encerrasse assim mesmo. Mas Alberto insistiu.
— Há tempos tenho sentido um enorme vazio existencial, sabe? E não sei onde buscar respostas para as minhas dúvidas!
— E resolveu buscar essas respostas... comigo?
— Sim!
— Cara! Eu não sou filósofo, psicólogo, nada! Não sei se consigo te ajudar! Só quero ficar tranquilo aqui, sabe?
Fez-se uma pausa. Pedro continuou tomando seu sorvete e, olhando de relance, percebeu que Alberto o observava. Sentindo que a conversa se estenderia e que o clima estava ficando esquisito, comeu de uma vez o que restava da casquinha e perguntou:
— Você quer saber o sentido da vida? É isso mesmo?
— Sim!
— Mas não é o que todos querem?
— Sim! Você acha que, por todos buscarem essa resposta, significa que ela não existe?
— Hein?
— Significa, talvez, que a vida não tenha um sentido? Talvez, não devêssemos existir e, no entanto, aqui estamos, vivendo cada um de um jeito e buscando um propósito que mascare a realidade de que a vida é absurda e estamos todos fadados ao fracasso! Não há propósito suficientemente bom e duradouro! Quando me satisfaço com alguma coisa, logo me aborreço com outra! Quando realizo um desejo, a satisfação é momentânea e logo desejarei outra coisa! Meu trabalho é cansativo e odioso, e o faço apenas pelo sustento, mas o que ganho não é suficiente para me preencher...
— Cara! Vá com calma! – disse Pedro, tentando não perder o fio da meada.
— Morrerei e não deixarei legado algum, pois nada do que fiz merece registro nas páginas da história! Meu trabalho, minhas experiências, até os poucos momentos de felicidade não passam de pó ao vento! Tudo morrerá e, em breve, serei esquecido! Nada do que fiz durará para sempre!
Pedro permaneceu quieto. Pareceu esperar um momento certo para falar alguma coisa, se é que alguma coisa viria à tona para ser dita. Alberto continuou:
— Se a vida é absurda e efêmera, por que sinto que busco por alguma coisa duradoura e estável? Por que não consigo me contentar com as coisinhas pequenas? Se nasci para morrer, nada do que posso fazer durará! Tudo passará! O céu e a terra passarão!
— “Mas as minhas palavras não hão de passar”! – disse Pedro, baixinho.
— Oi? O que disse?
— Ah, me lembrei de algo que Jesus Cristo disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. Algo assim! Está em algum dos evangelhos!
Alberto dirigiu um olhar interessado para Pedro, como se quisesse mais informações.
— Cara! Pensando aqui, essas angústias suas me lembraram muito as reflexões do rei Salomão, no livro de Eclesiastes! Você conhece a Bíblia?
— Er... mais ou menos!
— Salomão disse que nada importa, debaixo do sol! Tudo passa, tudo é correr contra o vento! Fama, fortuna, status, poder, tudo morrerá e não há nada que possamos buscar que seja, de fato, satisfatório! Exceto...
Alberto arregalou os olhos esperando pela conclusão com a ansiedade de uma criança que sabe que receberá um brinquedo novo, mas ainda não sabe o que é.
— Exceto o que é eterno! – disse Pedro.
— Ah, cara! Mas o que é eterno nessa vida? – questionou Alberto, visivelmente decepcionado com a resposta.
— Nada é eterno neste mundo, meu amigo! Mas, se ansiamos por alguma coisa que não morre, que não passa, e que o mundo material não pode nos dar, então posso dizer que não fomos feitos para este mundo! Estamos aqui, mas não somos daqui! O que acha disso?
Alberto pareceu sentir um estalo em seus pensamentos.
— Olha! Agora que você falou, nunca senti um verdadeiro pertencimento aqui, sabe?
— É porque ninguém pertence a este mundo, entende o que quero dizer? Por isso, ninguém há de se satisfazer por aqui! Mesmo o homem que se sente realizado, que tenha conquistado toda a fama e a fortuna desejada, um dia encarará a realidade de que sua vida é efêmera, que ele será esquecido e que todos os seus bens serão espoliados!
— Hum...
— Fama, riqueza, status, poder, nada disso pode atender ao sentido real da vida! O que estamos fazendo é enxergando um sentido errado para as nossas vidas! Talvez, nossa percepção do sentido da vida tenha sido... como posso dizer? Distorcida!
— “Distorcida”?!
— Sim! Pense bem! Se não fomos criados para este mundo, então estamos condenados a viver neste mundo até a morte! Então, buscamos pelos bens que este mundo material e perecível pode oferecer! Mas nada disso realmente importa, pois tudo passará! Exceto o que é eterno!
— Mas o que é eterno?
— A vida que Jesus Cristo oferece, é claro!
Alberto ficou pensativo. “Hum! O cara é crente e, provavelmente, tentará me converter agora!”. Mas a maneira como a conversa se desenvolveu até então o interessou a ponto de querer continuar. Enquanto ainda pensava, Pedro continuou:
— Pense bem, Alberto! Se buscamos por algo que é eterno, então, talvez, isso já tenha nos pertencido antes! Este “algo” é a vida eterna que tínhamos, mas que perdemos por causa do pecado! Agora, direcionamos nossa percepção do sentido da vida para o que o mundo material e perecível oferece e não para o que Deus oferece! Está entendendo?
— Mais ou menos! Deixa eu pensar em tudo isso que você falou! Se entendo que o sentido da vida está nas coisas do mundo e, não, em Deus, minha visão das coisas pode ter sido... distorcida! Ei! Parece que entendi o seu ponto!
— Nascemos por um propósito que não está em nós mesmos, nem no mundo! Deus nos criou por um propósito Dele! Então, se quisermos uma vida verdadeiramente propositada e parar de correr contra o vento, devemos voltar os nossos olhos, nosso coração, nossos objetivos a buscar a vida que Cristo oferece! E este é o sentido da vida!
Alberto sentiu que a questão que o incomodava estava quase respondida, mas apenas de um "ponto de vista religioso". Ainda não estava satisfeito.
— Gostei das suas considerações, Pedro! Mas parece coisa de crente, sabe? Faz sentido pra você, mas não pra mim, entende? Eu até acredito em Deus, mas...
— Pense nisso! Se há um Deus criador, o que é mais fácil de acreditar? Que Deus criou todas as coisas sem propósito nenhum, como uma força cósmica irracional? Ou que Deus, um ser inteligente, criou todas as coisas, especialmente nós, seres pensantes e racionais, para atender a um propósito que só pode estar Nele mesmo? O que você acha?
Pedro permitiu uma pausa. Alberto ficou pensativo, passou a mão no rosto, olhou para o alto e, após alguma reflexão, disse:
— Acho que faz sentido pensar que Deus tem um propósito para todos nós! Mas, se é assim, qual seria esse propósito?
E Pedro, sacando uma dessas Bíblias pequenas de bolso que contém, basicamente, só o Novo Testamento, aproximou-se um pouco mais de Alberto e disse:
— É o que veremos agora, meu amigo!