O PECADO QUE HABITA EM MIM

Nem tudo que HÁ em mim PERTENCE a mim. Não sou tudo o que penso e tudo o que faço. Pois se há necessidade de lutar contra algum pensamento, algum vício, alguma prática prejudicial constante, não luto contra mim, mas, sim, contra um inimigo que está em mim. De fato, parece que tenho “algumas personalidades” – e não me refiro a um transtorno ou a uma doença, mas às várias reações e pensamentos que tendo a adotar em determinadas situações (ora sinto-me sábio, ora tolo; ora furioso, ora fleumático; ora certo da salvação em Jesus Cristo, ora duvidando da providência de Deus). Mas sempre há um “lado bom e ideal” que gostaria que prevalecesse em mim em todo tempo; um certo padrão de serenidade, de sabedoria, de espiritualidade, de fé – que, infelizmente, se manifesta menos do que eu gostaria.

Se, pela graça de Deus, entendo que determinado pensamento ou atitude fere a minha santidade e minha comunhão com Deus, e, então, passo a lutar contra este pensamento ou atitude, estou lutando contra um inimigo, que é o pecado que habita em mim. Se o mal que não quero fazer é o que faço, e o bem que quero fazer não faço, entendo que há um caminho que preciso trilhar, um padrão que devo adotar ainda que com muito custo! Pois este padrão é bom justo, enquanto o contrário é mau, ainda que, eventualmente, resulte frutos aparentemente bons. Percebo que sou incapaz de amar as pessoas como deveria (mesmo pessoas que, de fato, amo, como minha esposa e meus filhos), não consigo fazer o bem sem algum interesse pessoal, não consigo manter meus pensamentos em perfeita ordem, não sou capaz de fazer a vontade de Deus; mas entendo que deveria fazer exatamente todas essas coisas e, por não fazê-las, sinto-me culpado, fracassado, entristecido e cansado. Percebo que não luto contra demônios, contra pessoas, nem mesmo contra influências externas, mas contra o inimigo que está em mim, o pecado que está na minha carne e busca por prazeres que não me convém e que me desviam do alvo.

Não me parece que a carne, em si, seja essencialmente pecaminosa. A carne, apenas, busca o que é mais fácil de ser feito, o bem-estar, a satisfação instantânea. Por isso, a carne é o habitáculo do pecado. Pois, para pecar, entendo ser necessário buscar alguma satisfação por meios contrários à vontade de Deus. Ninguém peca para se prejudicar ou para sofrer; peca-se para a própria satisfação e o prazer. E esta é a essência da nossa carne. Claramente, nem todo prazer e satisfação é pecaminoso, mas muitos são carnais, pois não provém exatamente do espírito. O sexo conjugal, por exemplo, é moral e agradável à Deus; mas o adultério é imoralidade sexual e abominável ao Senhor. E a carne aceita as duas práticas, satisfazendo-se tanto com o que é bom quanto com o que é ruim, desde que traga o prazer como resultado. Então, se eu viver sempre segundo a carne, jamais obterei sucesso profissional, pessoal ou espiritual, e serei indolente, fracassado, irresponsável; pois todo sucesso exige sacrifícios e dedicação – que a carne repudia veementemente. Vejo que muitas pessoas se entregam aos vícios (da comida, da bebida, das drogas, da imoralidade sexual, da procrastinação e do sedentarismo – nem todo vício é necessariamente pecaminoso, mas todos nos são prejudiciais), mas não gostariam de estar nesta situação, pois entendem que estão perdendo uma batalha pela própria vida, pela própria saúde física e mental. Entendem, mas cansaram-se de lutar.

Parece-me que há duas “constantes” que agem em meu SER, bem e mal, e uma delas não pode pertencer a mim, pois age contra mim e me prejudica severamente – tanto em aspecto espiritual (displicência na santificação) quanto material (a preguiça, os vícios). Em Romanos 7, o apóstolo Paulo foi enfático: não há nada de bom em minha carne, onde o pecado habita; pois “tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo” (Rm 7:18) e “se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7:20). Meus membros fazem, mas não quero realmente fazê-los. Minha mente pensa, mas não desejo realmente pensar.

Observo, finalmente, que a luta contra os meus vícios, a procrastinação, a displicência, os maus pensamentos é uma luta contra contra um INIMIGO que está em mim, contra o pecado que habita em mim! Quando declaro guerra ao pecado, estarei reconhecendo que algo em mim não me PERTENCE e que é meu INIMIGO. Já não justificarei o pecado, não me entregarei a ele; antes, minha atitude será de hostilidade para com ele. Mas toda guerra causa dor e sofrimento, e a luta contra o pecado não é fácil, tampouco prazerosa. Como é extenuante e ingrato tentar mudar um hábito nocivo que já pratico há muito tempo! E, mesmo quando deixo de praticar um ato pecaminoso por um tempo, posso voltar a praticá-lo em algum outro momento – e, então, parece-me que o doloroso processo da guerra contra o pecado precisa ser reiniciado; então me culpo e me fadigo! Entendo, ainda, que as chances de vitórias sejam mínimas, quiçá infactíveis, pois poderei me abster de algumas práticas, mas não DO pecado como um todo. Percebo que não há somente UM inimigo em mim, mas um verdadeiro exército deles! Pensamentos demais, desvios de caráter demais, vícios demais. Posso vencer o vício das drogas, mas perceber que preciso lutar contra a imoralidade sexual. Posso vencer a glutonaria, mas descobrir uma certa compulsão por mentir.

Por isso, é necessário buscar um aliado, um braço forte para me auxiliar na luta contra o exército de inimigos, a legião de pecados, que habita em mim. Posso recorrer aos psicólogos, aos filósofos, aos amigos e aos especialistas em geral? Sim, posso, SE minha luta se restringir aos inimigos mais evidentes (vícios e certos desvios de caráter, por exemplo). Talvez, com muito esforço, bons conselhos e acompanhamentos, os inimigos da “linha de frente” (pecados evidentes) sejam vencidos, de fato ou apenas paliativamente. Mas somente em Jesus Cristo posso vencer a guerra de fase em fase, de santificação em santificação; progressiva, mas constantemente.

É certo que, enquanto viver, jamais deixarei de SER um pecador, mas vencerei diversos pecados ao longo do processo de santificação, com Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Pois, se Cristo não for MEU SENHOR, é certo de que não acatarei Suas ordens e Sua direção por muito tempo. Então, a guerra contra o pecado será somente minha e lutarei segundo minhas convicções e minha própria força. Se Cristo não for MEU SALVADOR, não poderei contar com um braço forte, com uma fortaleza contra o meu inimigo, tampouco com o perdão de Deus que me livraria do peso da culpa, e, então, a guerra contra o pecado será somente minha.

Ora! Se creio no evangelho, não há lógica alguma em dispensar auxílio de Jesus Cristo! Pois nenhum benefício há em enfrentar o pecado que habita em mim sozinho, quando o próprio Deus, através de Seu Filho, morreu para assumir os meus pecados e ressuscitou para a minha justificação, no Dia do Juízo, por amor a mim! E Ele, claramente, tem o PODER que eu mesmo não tenho para me livrar da culpa e das consequências do meu pecado. Continuarei lutando sozinho? De maneira nenhuma! Louvado seja Deus por Seu grande amor revelado em Jesus Cristo, meu Senhor e meu Salvador!

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